Publicado em 20 de outubro de 2026
Com experiência na supervisão de 11 escolas em Porto Seguro e na assistência a pacientes com Covid-19, a nutricionista Tábita Lopes destaca os desafios do cuidado nutricional em diferentes contextos
Quando as escolas fecharam durante a pandemia de Covid-19, a interrupção das aulas também afetou o acesso à alimentação. Em janeiro de 2021, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e o Programa Mundial de Alimentos estimaram que mais de 39 bilhões de refeições escolares haviam deixado de ser oferecidas no mundo desde o início da crise, mostrando quanto a proteção nutricional de crianças e adolescentes dependia de uma rotina organizada dentro das unidades de ensino.
A pandemia tornou mais visível um trabalho que começa antes de o alimento chegar ao prato, envolvendo planejamento, abastecimento, condições sanitárias e acompanhamento do consumo. Em Porto Seguro, na Bahia, essas responsabilidades fizeram parte da atuação de Tábita Lopes, nutricionista com experiência na alimentação escolar e, paralelamente, no atendimento nutricional a pacientes hospitalizados com Covid-19.
Entre 2021 e 2023, Tábita supervisionou a alimentação de 11 escolas municipais, em uma estrutura que abrangia aproximadamente 3.120 estudantes e cerca de 30 funcionárias. Participou da implantação de uma nova organização do serviço terceirizado, acompanhando equipes, insumos e condições de produção, com atenção às necessidades das diferentes faixas etárias.
O que precisa funcionar antes de servir
Os cardápios elaborados eram aprovados pelo Conselho de Alimentação Escolar (CAE). Uma parte do trabalho de Tábita também incluía conferir entregas, ajustar pedidos de alimentos e verificar o armazenamento nas cozinhas. Questões como manutenção de equipamentos, disponibilidade de gás e controle de pragas entravam no acompanhamento operacional, porque uma falha nessas etapas poderia comprometer a execução das refeições previstas.
A supervisão também incluía a orientação das equipes quanto às práticas de higiene e manipulação segura dos alimentos, aproximando os procedimentos técnicos das condições encontradas em cada unidade. A organização das atividades considerava os diferentes turnos de funcionamento das escolas, de modo a garantir a continuidade do serviço de alimentação escolar.
“Um cardápio precisa de condições para ser executado. Se o ingrediente não chega, o equipamento apresenta um problema ou a equipe não entende uma orientação, isso interfere no que será servido”, explica Tábita.
A atenção se estendia aos estudantes com alergias e intolerâncias alimentares, para os quais participou da implementação e do acompanhamento de refeições adaptadas. Também observava a aceitação das preparações pelos alunos e acompanhava a aceitação de frutas, verduras e legumes provenientes da agricultura familiar local, relacionando o planejamento nutricional ao abastecimento e ao consumo.
“Olhar para o que sobra ajuda a fazer perguntas. É preciso entender se a quantidade foi adequada, como a preparação foi feita e por que os alunos não consumiram, antes de decidir o que mudar”, observa.
Na emergência, outras formas de alcançar a população
Durante a pandemia, a necessidade de manter o cuidado nutricional também apareceu fora das escolas. Em 2020, no início e durante a Pandemia, Tábita atuou no Hospital Regional Deputado Luís Eduardo Magalhães um Hospital de referência de média e alta complexidade. Já em 2021 integrou a equipe do Hospital de Referência Covid-19 de Arraial d’Ajuda, onde realizou avaliação e acompanhamento nutricional de pacientes internados, inclusive daqueles que necessitavam de suporte ventilatório.
Ao longo de aproximadamente dois meses no Hospital de Referência Covid-19, sua atuação correspondeu a cerca de 300 acompanhamentos nutricionais, número que inclui avaliações repetidas durante a internação e não representa 300 pacientes diferentes. O trabalho envolvia observar a aceitação alimentar, necessidade de indicação a nutrição enteral e sua tolerância, acompanhar a evolução dos casos e adequar as condutas em conjunto com a equipe assistencial.
No mesmo ano, participou do projeto municipal Lazer do Bem, levando orientações sobre alimentação e saúde. Às transmissões eram realizadas nos canais oficiais da Prefeitura de Porto Seguro. Durante cerca de dois meses, os encontros semanais abordaram hábitos alimentares e a relação entre nutrição, atividade física e qualidade de vida.
A iniciativa acrescentou uma dimensão educativa à resposta daquele período, permitindo apresentar informações profissionais em linguagem acessível a pessoas que acompanhavam o conteúdo de casa. Enquanto o atendimento hospitalar exigia decisões individualizadas, a comunicação pública buscava tornar o conhecimento nutricional compreensível para a comunidade.
“A orientação nutricional precisa considerar a realidade de cada público. Nas escolas, é importante capacitar as equipes responsáveis pelo preparo das refeições. Já nas ações voltadas à população, o objetivo é transmitir informações práticas que ajudem as pessoas a fazer escolhas alimentares mais saudáveis no dia a dia”, afirma.
As experiências mostram diferentes caminhos pelos quais o trabalho do nutricionista chega à população. Na atuação de Tábita na alimentação escolar e na assistência nutricional a pacientes hospitalizados durante a pandemia de COVID-19 evidenciou como a nutrição desempenha um papel fundamental na promoção da saúde em diferentes fases e contextos da vida. Na merenda escolar, essa atuação demonstra que o cuidado nutricional começa com o planejamento de refeições adequadas, a segurança dos alimentos e o incentivo à formação de hábitos alimentares saudáveis desde a infância. Já no ambiente hospitalar, especialmente durante a pandemia, ficou evidente a importância de uma assistência individualizada e humanizada, adaptada às condições clínicas e às necessidades de cada paciente. Essas experiências mostram que o cuidado nutricional vai além de oferecer alimentos: envolve prevenção de doenças, proteção da saúde, apoio à recuperação e atenção às necessidades de pessoas em diferentes condições de vulnerabilidade.
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Por Priscilla Moura